Educação permanente

"A educação começa, finalmente, a ser reconhecida como um processo fluente que elimina dualismos e barreiras e ajusta-se à unidade do homem colado à sociedade que ele constrói. A fluência reflete-se no plano pedagógico sob vários aspectos: na comunicação entre os diversos tipos de currículo, como é o caso dos "colégios integrados", mas também na comunicação vertical entre os vários níveis de cursos. Níveis primário, médio e superior; modalidades técnicas diversificadas, ao lado da educação geral, toda essa arquitetura cede ao impulso fertilizador da nova educação, a qual é uma só, permitindo ascensão de um nível para outro, não através de rígidos segmentos, mas de um processo contínuo. Tecnicamente, esse modelo exige, ainda, que permaneçam os moldes tradicionais, a criação de um fluxo de que possa cada um retirar o quantum de educação que comportem seus interesses, talento e tempo disponíveis. Cessa o tempo escolar - há um tempo contínuo; cessa o espaço social escolar - há um espaço social contínuo; cessa a exclusividade da técnica escolar - quase todas as técnicas sociais podem transformar-se em técnicas da educação. Todos os tempos são tempos da educação; todos os lugares são lugares para a educação; todas as formas de comunicação e controle social podem reduzir-se ao processo educacional." (DTM, Um novo mundo, uma nova educação, p. 12)

   

"O futuro provavelmente voltará a ter uma só educação: unificada para todas as classes sociais, impulsionada por uma variedade de técnicas e processos - entre os quais o modelo escolar convencional será apenas uma das possibilidades - transcendente de todo limite cronológico, como um processo de atualização permanente do ponto de vista cultural e profissional. Considerando a questão por outro ângulo, poderíamos dizer que no passado a sociedade estática se reproduzia em cada geração, de maneira a justificar as características, já assinaladas, da antiga educação. Cada geração podia prover-se - a si própria e à sociedade sob sua liderança - com um pecúlio trazido da escola, que permanecia eficaz a vida inteira. Cada geração poderia esperar, em suma, que se completasse na escola a formação da que deveria substituí-la. Atualmente, tem a sociedade de banhar-se numa cultura incessantemente renovada - como um rio de Heráclito - cuja riqueza e dinamismo transcendesse os processos de escolaridade." (DTM, Um novo mundo, uma nova educação, p. 12-13)

  

"A aprendizagem dos adultos deve processar-se, em larga escala, na ambiência de sua vida e de seu trabalho, mediante o uso de técnicas apropriadas de comunicação, de formação e de treinamento. A mediação da escola de adultos seria reduzida até os limites indispensáveis do disciplinamento intelectual e técnico, já que, no estágio atual, a sociedade não comporta ainda o autodidatismo. Permanece a escola como matriz da formação cultural e profissional, apenas mudando de perfil, mas adquirindo possibilidades de alongar a sua influência sobre o conjunto da vida e do trabalho humano. Entretanto, sobretudo no Brasil, a escola não se articula com a vida e o trabalho." (DTM, Educação de adultos. Conferência - mimeo.)

  

"A complementação ou a mudança de competências é, sabidamente, um fenômeno das sociedades modernas, que requerem, por isso mesmo, um sistema aberto de educação, ao modo da educação permanente. Sistema que se caracteriza, entre outros caminhos, a) pela possibilidade de serem oferecidas a cada um as oportunidades educacionais condizentes com seus interesses, talentos, tempo disponível etc.; b) pela interpenetração da práxis educacional e da práxis social, com a supressão do monopólio da escola no processo educativo." (DTM, Indicações para uma política da pesquisa da educação no Brasil, p. 493)

  

"O indivíduo não cai dentro de uma profissão como um objeto passivo se encaixa dentro de um escaninho, ou um bicho-da-seda dentro de seu casulo. Ele se torna elemento ativo e criador, não só porque se movimenta dentro de seu emprego, como também porque é capaz de olhar o mundo, além deste, como um horizonte de possibilidades para a sua promoção humana e social. Ele precisa estar armado de uma consciência crítica e prospectiva para não cair num emprego como uma pedra cai num poço, mas para mergulhar numa corrente que pode levá-lo sempre adiante. A sua habilidade fundamental é para exercer criadoramente o seu ofício, aperfeiçoando-o, extraindo dele uma consciência gratificante que está ligada só a um opus - e nunca a uma tarefa - e transcendendo-o sempre para outros ofícios mais próximos de sua ambição criadora e de sua capacidade." (DTM, Para uma filosofia da educação fundamental e média, p.94-95)

 

 "As populações adultas precisam ser rapidamente integradas à comunidade nacional, sem terem de esperar pelas escolas. Por que não oferecer-lhes as idéias em jogo no País, as informações básicas que devem informar a sua conduta cívica e política em face dos problemas nacionais e internacionais?" (DTM, Universidade, teatro e povo, p.11)