Educação Criadora

"A educação do conformismo não pode produzir indivíduos criadores; a educação da bravura mental com a disciplina da verdade, esta é que logicamente pode levar aos gestos criadores, tão necessários aos membros de uma sociedade democrática e de um mundo em mudança." (DTM, A universidade e sua utopia, p.227)

  

"Qualquer pessoa se movimenta num universo construído pelas suas imagens e, enquanto alimentado por estas, num espaço de criatividade. É sempre nova a imagem, originariamente, isto é, no momento em que ela está rente, sem qualquer intermediário, com a percepção, e entregue ao dinamismo desta. A imagem capta e ao mesmo tempo escamoteia o real; assimila-o e 'falsifica-o'. A arte é uma falsificação na medida em que ela não reporta os seres como são na natureza, mas como os faz o nosso imaginário que é, por isso mesmo, o homem acrescentado à natureza e, em certa medida, à própria cultura." (DTM, Realidade, experiência, criação, p. 229-230)

  

"A arte na educação não significa 'educação artística' no sentido convencional, mas significa a educação em si mesma. Fazer-se fazendo. Se é verdade que com a experiência não há nenhuma educação ou aprendizagem, também é verdade que sem essa experiência radical não é possível a educação que prepara cada homem para introduzir na sociedade uma consciência original, forte de fertilização e de mudança." (DTM, Em busca de uma consciência original, p. 10)

   

"A professorinha que tem medo dos elefantes ou das flores inventadas pela criança, porque destroem as suas harmonias, tem medo das imagens novas que estão surgindo no único celeiro de criação - que é o imaginário, acionado pela ação. A professorinha que desenha primeiro, para a criança desenhar depois, segundo o seu risco - seja para reproduzi-lo, seja para colori-lo - é uma autêntica representante da sociedade, que só sabe trabalhar com o estabelecido, o que já aprovou, o que assegurou estabilidade. O medo às garatujas da criança não é só o medo ao feio - embora também o seja - é o medo ao novo: é a crença inconsciente de que o feio de agora poderá ser o belo de amanhã; e também que as formas tortas saídas da mão da criança poderão exprimir, amanhã, a recusa ao 'certo' de hoje; mas também, algumas vezes, o medo de que as deformações sob o lápis da criança sejam as que existem na realidade, escondidas nas formas 'perfeitas' de uma arte escamoteadora. A criança vê fraturas, deformidades, aleijões, que existem, de fato, e que os bem-pensantes procuram dissimular. E, outras vezes, essas fraturas representam a sua rebeldia contra os linearismos com que se exprime o estabelecido muito limado e polido pelo 'senso comum', que é como os bem-pensantes chamam o lugar comum." (DTM, Realidade, experiência, criação, p. 232)

  

"O corpo e a alma da cultura estão ligados, antes de mais nada, às sensibilidades mais primitivas, aquelas com que a criança recebe em seu pequeno universo as primeiras impressões e experiências. E são essas sensibilidades que dão, ao mesmo tempo, o impulso e o molde a todas as suas elaborações posteriores, inclusive no plano científico. A ciência é o reino da Objetividade. Mas o Objeto é menos objetivo do que parece. É a realidade, mas também o modo de olhar a realidade, que a gente aprende quando abre os olhos ao mundo e começa a exercer sobre ele a aventura de nossa criatividade. Felizes os que, nesse momento, podem objetivar as suas visões, através da arte. Dos que, nesse instante, estão munidos de lápis ou pincel para passear, livremente, sobre o papel, as suas 'divagações'. Nesse sentido, a arte é o fazer que se confunde com o ser. O fazer da criança que desenha é o seu ser: ele se faz fazendo. Daí a importância fundamental do fazer na educação; mas o fazer que conta não é o mecânico, o repetitivo, o 'ensinado', e sim o fazer da arte, isto é: o fazer que é criação e, antes de tudo, criação do nosso próprio ser." (DTM, Em busca de uma consciência original, p. 10)

  

"Abaixo a formação profissional, que opera, por exemplo, com as "séries metódicas" - como as adotadas antigamente no SENAI - pelas quais os adolescentes e jovens se tornavam escravos do projeto de seus patrões e, liminarmente, demitidos de seus próprios projetos. Abaixo a visão estereotipada de Deus, do Estado, do homem, da sociedade - e de todo o trivial em que nós gastamos esses valores supremos. Abaixo os caligrafistas, os puristas, os burocratas.

E bem haja as imperfeições que reconstroem a imagem do mundo. As pontes tortas desenhadas pelas crianças de 4 a 5 anos - pontes que, entre uma margem e outra, têm a flexão do sonho; sabe-se lá que arquitetos elas darão!" (DTM, Realidade, experiência, criação, p. 233)

  

"Se nós lhe dermos a solidão, o indivíduo redescobrirá a sociedade. Se lhe assegurarmos liberdade, o Si-mesmo descobre a transcendência dentro de sua própria obra. Se o deixarmos fazer, ele faz o ser. Se lhe concedermos o lazer, ele realiza o trabalho que muda a qualidade da vida. Se lhe dermos a autonomia, ele reinventa o mundo. Por tudo isso, o imaginário da criança - a ser preservado na idade adulta - constitui a única fonte de renovação possível." (DTM, Realidade, experiência, criação, p. 228)