Durmeval Trigueiro Mendes: um mestre muito especial
Zaia Brandão
Professora do Programa de Pós-Graduação da PUC / RJ


          Conhecemo-nos no início de 70. Eu, mestranda, ele, professor. Dez anos depois éramos professores da mesma matéria: Educação Brasileira no mestrado da PUC/RJ. Eu, discípula, ele, Mestre.

          Simplicidade e erudição, este "par analítico" pode ser útil a este depoimento. Falar de Durmeval é ficar em dívida. Como selecionar um aspecto, sem mutilar a grandeza do amigo-Mestre?

          Lembro-me do primeiro impacto, logo que o conheci. Era uma aula de Filosofia da Educação. Durmeval discorria sobre as articulações entre cultura, educação e política. Rigor, fluência e erudição. Erudição que intimidava, em um primeiro momento. Entretanto, a naturalidade e simplicidade com que utilizava o conhecimento vasto e variado - fruto de uma intensa dedicação ao estudo - logo revelava o caráter do pensador Durmeval Trigueiro Mendes.

          Seu compromisso era com o conhecimento. Conhecimento que não produz, mas cria. Pensador, entretanto, que assumiu a tarefa de levar seus alunos à reflexão criativa. A partilhar do processo de usar, com a sua ajuda, as ferramentas poderosas, do erudito que era, na tentativa de captar a complexidade da vida social, para aí entender o processo cultural.

          O convívio revelou o caráter criativo que imprimiu à sua erudição. Desviou-se, portanto, do caminho fácil da erudição sem densidade, tão comum na "academia". Aquela que serve mais para encobrir, do que para revelar.

          Associou, de forma peculiar, sua condição de elite intelectual que cria saber, com a de cidadão que põe seu trabalho a serviço da causa democrática.

          Pensou originalmente as questões nacionais, tão freqüentemente escamoteadas pelo jargão acadêmico "desidratado" (termo do mestre) pelo distanciamento dos problemas reais. Essa, uma das questões que o inquietava intensamente. "

          A valorização da teoria em certos ambientes acadêmicos (ou academizáveis), separada dos fatos, representa um sutil modelo de alienação... separação entre fatos e idéias, que permite a busca de idéias de fora, que traduzem outros fatos. Através desta parábola o nosso ser é substituído pelo ser dos outros. Um outro tipo de substituição, na qual persiste a nossa recusa de morder o real - no fundo, o nosso desamor a ele é o que troca a coisa pela palavra" (Trigueiro Mendes, 1983) (grifo meu).

          Durmeval foi à luta; associou as duas: a coisa e a palavra. Aceitou o desafio de sair do encastelamento acadêmico (tão comum aos "PhDeuses" geradas pelo processo de mimetismo cultural da nossa pós-graduação) para "morder o real" .

          Não se preocupava com a projeção, neste mesquinho meio intelectual. As gerações mais novas que o viam passar pelos corredores da PUC/RJ, com a sua inseparável pasta de trabalho, sequer imaginavam que por ali passava um dos maiores pensadores da educação brasileira. Gerações que procuravam nos livros e grandes eventos o que estava o tempo todo ao seu alcance; um pensamento comprometido com o projeto de enfrentar o desafio de encaminhar alternativas para a educação e a sociedade brasileira.


In: Universidade Federal da Paraíba. Concepção
do educador e da universidade.
João Pessoa: UFPb, 1988. p.85-86.