A concepção de ensino e pesquisa de filosofia da educação brasileira em Durmeval Trigueiro Mendes
José Silvério Baia Horta
Professor Titular da Faculdade de Educação / UFRJ

          Dando seqüência a esta mesa-redonda, que pretende apresentar alguns aspectos do pensamento de Durmeval Trigueiro Mendes, cabe-me expor a sua concepção de pesquisa e ensino. Embora presente em toda a sua obra, esta concepção foi melhor sistematizada por ele no momento em que se viu diante do desafio de elaborar um projeto para um instituto de estudos avançados em educação, ao participar, juntamente com Anísio Teixeira e Faria Góes, da comissão encarregada de planejar o IESAE, na Fundação Getúlio Vargas, no início da década de 1970.

          Quero falar inicialmente sobre a concepção durmevaliana de ensino e pesquisa em educação; procurarei depois mostrar como esta concepção concretizou-se em duas atividades por ele desenvolvidas no IESAE, nas quais deixou sua marca inconfundível: a disciplina Filosofia da Educação Brasileira, que ele lecionou durante 14 anos, e a pesquisa sobre o mesmo tema, planejada e coordenada por ele, e realizada no período 1977-79, com o apoio financeiro do INEP.

          Estas duas atividades, traduzindo a própria concepção da relação ensino/pesquisa em Durmeval Trigueiro Mendes, desenvolveram-se em um processo de fertilização mútua: a pesquisa surge como conseqüência lógica da disciplina, e esta, por sua vez, modifica-se constantemente, primeiro em função de sua dinâmica interna e do trabalho incessante de criação e estudo de seu idealizador e, depois, em função dos resultados da pesquisa.

  

 

          A concepção durmevaliana de ensino e pesquisa em educação

          Para Durmeval Trigueiro Mendes, o desafio do IESAE consistia em contribuir no sentido de substituir a administração burocrática do sistema educacional brasileiro, por uma administração técnica; e o ensino rotineiro e alienado, por um ensino capaz de produzir uma visão criadora e crítica da educação. Daí a necessidade da pesquisa educacional, a qual constituía, segundo ele, a substância da pós-graduação.

          A pesquisa em educação deveria, segundo Durmeval Trigueiro, obedecer a três postulados básicos:

          a) desenvolver em função da política educacional e do progresso das ciências da educação no país;

          b) incluir, além da pesquisa empírica, a "obra do pensamento", a qual implicaria uma reflexão filosófica em busca das raízes de inteligibilidade da educação, de suas categorias e de seus processos, e um esforço de síntese. Tal síntese, a ser realizada por generalistas, com a colaboração de filósofos, cientistas, sobretudo sociais, e administradores, significaria a integração das ciências entre si e das ciências com a política educacional;

          c) a pesquisa em educação seria analítica, mas também prospectiva, isto é, deveria preocupar-se não apenas com a explicação das estruturas e sistemas em funcionamento, mas também, e sobretudo, com a indicação de outros modos de funcionamento requeridos pelo desenvolvimento brasileiro.

          Note-se que, ao formular estes postulados, Durmeval Trigueiro Mendes posiciona-se claramente contra um certo empirismo rasteiro que dominava a pesquisa educacional no início da década de 1970 (e que, infelizmente, ainda sobrevive) e contra a tendência de analisar-se a relação educação-sociedade a partir de uma concepção funcionalista. Segundo ele, estas tendências colocavam o pesquisador diante do risco de aprisionar-se na "zona" do real na qual a pesquisa se instala, ou de aprisionar-se dentro do próprio sistema, considerado como algo que se explica a si mesmo, insuscetível, portanto, de determinar suas próprias mudanças. Para escapar a estes riscos, o pesquisador deveria trabalhar com uma visão de totalidade e adotar outros métodos de análise científica, que ultrapassassem uma análise puramente funcionalista.

          Ora, isto só seria possível se a pesquisa educacional assumisse uma dimensão interdisciplinar, associando, de forma vigorosa, as ciências da educação e as ciências sociais e desenvolvendo um processo de reflexão radical, baseado na filosofia da educação.

          Quanto ao ensino, Durmeval Trigueiro Mendes parte do princípio de que a característica essencial da pós-graduação é a elaboração, e não a informação. Não se trata de levar os alunos a absorverem um saber feito, mas de levá-los a fazê-lo por conta própria. No ensino pós-graduado, trata-se de fazer avançar o saber, seja incorporando a ele novas zonas da realidade, seja construindo outros padrões teóricos, seja ampliando o nível de percepção teórica dos alunos. Desta forma, o ensino não deveria dar-se, predominantemente, em termos de aulas, mas de pesquisas e seminários. As aulas destinar-se-iam, basicamente, aos trabalhos de orientação geral e de síntese teórica.

 

 

          A pesquisa e o ensino de filosofia da educação brasileira, segundo Durmeval Trigueiro Mendes

 

          Como disse no início desta minha intervenção, a concepção de ensino e pesquisa desenvolvida por Durmeval Trigueiro concretizou-se nas atividades ligadas à filosofia da educação brasileira, realizadas por ele ao longo dos quase quinze anos de atividade no IESAE.

          A criação da disciplina Filosofia da Educação Brasileira é justificada por Durmeval Trigueiro a partir de duas constatações:

          a) a falta de bases teóricas capazes de orientar a prática das instituições educacionais no Brasil. Afirma ele: "Ao contrário do que alguns, ingênua ou maliciosamente supõem, quando declaram que (no Brasil) há excesso de teoria na educação e que falta é colocá-la em prática, o que existe, na maioria das vezes, é uma prática inconsistente por falta de conhecimentos vigorosos e atualizados" ;

          b) como conseqüência disso (segunda constatação), a maioria dos pedagogos ignora a correlação entre o sistema social e o sistema educacional, entre o saber e o poder.

          Baseado nestas constatações, ele conclui da necessidade inadiável de uma reflexão radical sobre a educação brasileira, a partir da percepção filosófica de seus valores e de suas finalidades: "Nada parece ser mais urgente para a educação brasileira do que o exercício de um pensamento coerente e articulado com os fatos". Tal atividade constituía, segundo ele, a tarefa específica da filosofia da educação.

          Neste momento, Durmeval Trigueiro Mendes introduz uma distinção entre filosofia da educação no Brasil e filosofia da educação brasileira. Enquanto a filosofia da educação no Brasil assumia um enfoque predominantemente histórico, a filosofia da educação brasileira não seria, jamais, um simples inventário ou uma análise do produto histórico da educação. Mesmo permeada pela dimensão histórica, a filosofia da educação brasileira seria, fundamentalmente, um projeto, capaz de elucidar o significado da filosofia da educação e da cultura brasileira. Tratar-se-ia, antes de tudo, de um questionamento permanente da pedagogia brasileira, a partir de uma visão que, embora autóctone, levasse em consideração as interligações com outras visões e culturas estrangeiras, e de uma elaboração permanente que, numa perspectiva dialética, mobilizasse categorias e conceitos básicos, fundamentalmente filosóficos e vinculados às ciências humanas.

          As atividades de Durmeval Trigueiro, relacionadas com o ensino e a pesquisa de filosofia da educação brasileira, orientava-se a partir de três diretrizes fundamentais: a função específica da filosofia e do filósofo da educação, o caráter interdisciplinar destas atividades e a busca de uma dimensão nacional.

          a) Função do filósofo da educação: segundo Durmeval Trigueiro, a educação, enquanto projeto, ao mesmo tempo político e filosófico, não pode ser compreendida exclusivamente no âmbito da racionalidade técnica, que é uma racionalidade de segundo nível. Elas exigem o estabelecimento de alguns pressupostos, que pertencem à racionalidade filosófica e política. Afirma ele: "A normatividade básica da educação não é haurida na ciência empírica nem, a fortiori, na técnica. Ela provém de um saber mais radical: saber dos valores que, em última análise, estruturam o ser e a cultura do homem dentro de seu projeto existencial".

          Assim, o papel do filósofo será aprofundar o estudo da educação brasileira como empreendimento, buscar as idéias sob as estruturas educacionais, o fio que liga a educação às várias estruturas da sociedade e da cultura. Mas não se trata, como seria o caso em uma concepção estruturalista, de deter-se nas estruturas constituídas; trata-se, sobretudo, do esforço para identificar o processo genético que as constitui como um devenir. Trata-se de um projeto educacional que explore as permissividades do real, sem as quais a educação, como práxis criadora e normativa, careceria de sentido. Entretanto, esta revisão das estruturas educacionais devem ser tomadas em sua dimensão histórica, e não como fruto da mera imaginação arquitetônica para organizar sistemas, ou como expressão de verdades intemporais. Desta forma, a filosofia é também história e cultura: através dela, a história coloca o problema do sentido e torna-se historicidade.

          Ao discorrer sobre as funções do filósofo da educação, Durmeval Trigueiro Mendes estabelece uma distinção entre o filósofo e o assessor. Segundo ele, o primeiro trabalharia nas esferas do saber; o segundo, rente às esferas do saber. Os depoimentos que antecederam ao meu mostraram claramente que, mesmo quando esteve, de uma forma ou de outra, mais perto das esferas do poder, Durmeval Trigueiro Mendes atuou fundamentalmente, não como assessor, mas como filósofo.

          b) A exigência da interdisciplinaridade: Durmeval Trigueiro afirmava, de forma categórica, que a solução para os problemas da educação brasileira não viria dos pedagogos, mas sim daqueles que se mostrassem aptos para exercer, em relação à educação, uma consciência crítica e aperceptiva. Do ponto de vista do pensamento, isto seria tarefa dos filósofos, dos cientistas sociais e dos educadores, em sentido lato. Segundo ele, na conjuntura brasileira, na qual havia um descompasso entre o subsistema educacional e o sistema social global, tornava-se muito difícil ao pedagogo, como tal, continuar a ser o guia exclusivo do próprio sistema educacional. Entretanto, não se tratava simplesmente de transferir a liderança das transformações educacionais do pedagogo para os cientistas sociais, ou para os filósofos ou psicólogos. A mudança da sociedade somente pode operar-se quando se opera a mudança do todo. E esta requer, no plano político, um projeto criador.

          c) A busca de uma dimensão nacional: esta diretriz, que não aparece claramente sistematizada em seus escritos, esteve permanentemente presente em suas preocupações. Da mesma maneira como não admitia o predomínio de uma determinada forma de saber na reflexão sobre educação, Durmeval Trigueiro Mendes insurgia-se constantemente contra o predomínio dos grandes centros (Rio e São Paulo) na definição dos rumos do pensamento pedagógico brasileiro. Segundo ele, "não estão só no Rio, ou em São Paulo, os valores intelectuais do Brasil. E o elenco existente se forma, em grande parte, pelo êxodo constante das inteligências inconformadas com as limitações de seu meio nativo".

Esta preocupação com a dimensão nacional orientará Durmeval Trigueiro no momento de compor a equipe que deveria participar do projeto de filosofia da educação brasileira, para a qual ele convidou pesquisadores do Rio e de São Paulo, mas também de Recife e de Brasília.


In: Durmeval Trigueiro Mendes - filosofia política
da educação brasileira.
Rio de Janeiro: UFRJ / FUJB, 1990. p.71-77.