Milton Paiva
Professor Emérito da Universidade Federal da Paraíba

João Pessoa, julho de 1999


         Conheci Durmeval Trigueiro desde o tempo em que fomos alunos do Seminário Arquidiocesano, em João Pessoa, na Paraíba. A partir daí firmou-se entre nós uma estreita e íntima amizade. Pude assim testemunhar, dentro outras características de sua personalidade de exceção, a extraordinária e poderosa inteligência de que era dotado. Tanto escrevia bem, revelando grande conhecimento dos assuntos de que tratava, como falava com facilidade e fluência que impressionavam os que o ouviam, sobretudo os alunos - escolhera como profissão o magistério - que sempre lhe devotavam especial admiração, conforme o depoimento de muitos deles.

         Dotado de vasta cultura filosófica voltada para os problemas da educação, Durmeval Trigueiro figura, sem exagero, entre os grandes educadores brasileiros, ao lado de Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo. Escreveu numerosos e densos trabalhos, muitos dos quais se encontram na publicação Documenta, do então Conselho Federal de Educação, e na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, do INEP, além de grande número de plaquetes e apostilas destinadas sobretudo aos alunos dos cursos que ministrava.

         Diante de tão intensa atividade intelectual, pode-se imaginar o drama que foi para Durmeval e para seus amigos o derrame cerebral que sofreu e que o atingiu naquilo que constituía o seu fundamental instrumento de trabalho: a capacidade de falar.

         Visitando-o ainda no hospital, nos primeiros dias do seu acidente de saúde, dele só se ouvia a única palavra: "coisa". Com enorme força de vontade, com a ajuda inestimável e competente de sua esposa e através de exercícios apropriados, Durmeval se foi aos poucos recuperando da afasia, tendo, até mesmo, conseguido voltar ao magistério e escrever e publicar novos trabalhos.

         Embora sua recuperação não tenha sido total, pode-se dizer que superou em grande parte o problema da afasia. Até sua morte, em 1987, prosseguiu em sua atividade de professor e de autor de novos trabalhos. A afasia passou a manifestar-se mais, ao que me parece, nos contatos e conversas informais desprovidos de tensão emocional.

         Certa vez, após longa conversa sobre temas filosóficos com um querido amigo, o padre Daniel Lima, também um grande intelectual, voltou-se este para mim e disse surpreso: "Parece que o derrame cerebral de Durmeval tornou-o mais inteligente, mais perspicaz em seus comentários e reflexões!" Noutra oportunidade de que fui igualmente testemunha, falando como paraninfo para turmas concluintes de uma universidade, leu Durmeval um texto de sua autoria com tanta propriedade e fluência que fez com que uma das autoridades presentes e nosso amigo comum perguntasse surpreso: "Quem escreveu esse texto para Durmeval?"