Jader de Medeiros Britto
Pesquisador Associado do PROEDES - FE / UFRJ

Rio de Janeiro, agosto de 1999


Lembranças de Durmeval

          Ouvi Durmeval pela primeira vez em conferência na Associação Brasileira de Educação, em que analisava problemas vários do ensino primário ao superior. Despertou-me a atenção, desde logo, a elegância da expressão verbal, que ornava a versatilidade da formulação do pensamento, centrado na preocupação social e na busca de alternativas para enfrentar os problemas educacionais suscitados pela realidade brasileira. Uma convicção foi-se firmando em minha percepção: estava diante de um esteta da palavra, alguém que a manejava com tal espontaneidade que se poderia intuir tratar-se de um artesão, um artista criador operando com seu instrumento de trabalho.

          A mesma impressão se confirmou por ocasião da transmissão de cargo de Diretor do Ensino Superior do MEC, de que fora dispensado pelo Governo militar em 64. Além da naturalidade da expressão, a tranqüilidade de quem está consciente de ter feito a sua parte.

          Nossa convivência foi se tornando mais assídua ao procurá-lo como editor da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos para publicar seus trabalhos. Nessa função pude acompanhar o tecelão Durmeval elaborando e refinando a textura de seu discurso para que transmitisse suas idéias com toda a inteireza. Um permanente desafio, dada a fertilidade mental desse pensador, sempre reconstruindo, ampliando a arquitetura de suas concepções.

          Quando ocorreu o derrame, em 1972, quase um ano após a morte de Anísio Teixeira, faltou-me coragem para procurá-lo de imediato, receando as dimensões das seqüelas. Afinal, certo dia, acompanhado da professora Noêmia Varella, fomos visitá-lo, e a satisfação de encontrar o amigo lúcido, com disposição para retomar gradativamente os trabalhos em que vinha se empenhando, me reanimou. Percebi então algumas dificuldades de elocução, especialmente na lógica do discurso, que apresentava uma seqüência por vezes quebrada, claudicando na concordância nominal e verbal. Com as sessões de terapia da palavra a que se submeteu, essas dificuldades foram se atenuando, embora sem superá-las de todo.

          O corte havido, o impacto da nova situação na vida de Durmeval, como seria previsível, haveria de ter profundas repercussões emocionais. Passei a visitá-lo com certa assiduidade, examinando com ele as possibilidades de publicação, na citada Revista, de textos por ele produzidos antes do derrame, o que parece haver trazido algum estímulo para a automobilização das energias intelectuais. Apesar da afasia, continuava tentando refinar passagens de seus textos, dadas as características de sua reflexão em permanente reconstrução, felizmente preservadas. Em certa ocasião chegou a comentar, aproximadamente, nos seguintes termos: "é paradoxal que sendo a ciência da linguagem uma das minhas predileções em termos de especulação teórica, justamente nesse campo estou vivenciando na carne a fisiologia do processo." Vem-me à lembrança o comentário do psicólogo Hans Ludwig Lippman: "apesar da afasia, o nível da expressão verbal do professor Durmeval Trigueiro ainda está muito acima do nível da média do professorado brasileiro de ensino superior..."

          Como seu assistente de 1975 a 76 na disciplina Filosofia da Educação Brasileira, que ministrava no Mestrado do IESAE, acompanhei sua extraordinária aplicação ao elaborar os planos de curso, ao programar os seminários ou ao estruturar o projeto de pesquisa relativo a essa disciplina, que seria encaminhado ao INEP e aprovado por esse órgão. Revelou-se então um articulador operoso, constituindo uma equipe de professores do Rio de Janeiro e de São Paulo para desenvolverem as quatro linhas do projeto.

          Apesar da evolução havida, notava-se, sobretudo nos trabalhos em grupo, a exemplo dos seminários, alguma insegurança, talvez decorrente de seu perfeccionismo ou de sua preocupação com um desempenho satisfatório. Recordo, a propósito, a atitude responsável dos mestrandos, poupando-o de questionamentos impertinentes. Já no atendimento individual, obtinha resultados excelentes na orientação de dissertações de mestrado ou nas teses de doutorado, parecendo mais espontâneo e à vontade no contato pessoal.

          Na última fase em que nos reencontramos para examinar novos estudos, quando tinha em vista dois projetos de pesquisa - um sobre a produção intelectual na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos e outro sobre a relação do Saber com o Poder -, tivemos oportunidade de trabalhar no texto "Subsídios para a concepção do educador", que deveria ler ao receber o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade da Paraíba. O acidente que o vitimou uma semana antes dessa solenidade levou a Universidade a conceder-lhe o título post mortem.

          Outros textos lúcidos, formalmente corretos, foram por ele produzidos nesse período final de sua existência, como os que integram o livro Filosofia da educação brasileira, ou os prefácios de livros como o de Educação e transformação, de Maria Luiza Penna, sobre a atuação de Fernando de Azevedo. É certo que as dificuldades decorrentes da afasia não haviam sido totalmente superadas. Mas também é certo que continuou resistindo, trabalhando intensamente, jamais entregando os pontos, pensando, buscando atualizar-se, participando do momento político, inclusive subscrevendo emendas populares como a da reforma agrária, encaminhada ao Congresso Constituinte que elaborou a Constituição de 1988. A afasia, poderíamos dizer, foi vencida pela consciência social do cidadão Durmeval Trigueiro