Elza Felicissimo Vieira
Fonoaudióloga

Rio de Janeiro, setembro de 1999

 

Procurando ajudar às pessoas que tenham em sua família, ou entre seus conhecidos, alguém que esteja passando por uma afasia

 

          Hoje, com quase 30 anos de experiência profissional na área de Afasia, como fonoaudióloga, e tendo atendido a várias pessoas que, por acidente vascular cerebral (AVC) ou por traumatismo craniano ficaram afásicas, venho realizar um desejo que me acompanha há muito tempo, que é poder ajudar às famílias que estão convivendo com esse problema. Se você tem na sua família ou conhece alguém que tenha um diagnóstico de afasia, tente de algum modo ajudá-lo a procurar uma terapia. É importante que todos saibam que existem fonoaudiólogos que poderão ajudá-lo em sua recuperação. Em Fonoaudiologia existem várias especialidades, sendo a afasia uma delas.

          É comum o afásico e sua família passarem por um período de grande ansiedade. Isso é natural, mas para que a família possa ajudá-lo é necessário baixar o nível dessa ansiedade. Isso só será possível a partir do momento em que os familiares acreditarem na possibilidade de sua recuperação. Para algumas pessoas envolvidas emocionalmente com o caso, diminuir essa ansiedade pode ser muito difícil. Por isso deve-se procurar dentre os familiares aqueles que conseguem se manter mais tranqüilos para acompanhá-lo mais diretamente, pois só assim poderá haver sucesso no trabalho a ser desenvolvido pelo profissional. É importante saber que a pessoa que está passando pela afasia continua sendo a mesma pessoa. O que está comprometido é a sua linguagem, e é essa linguagem que vai ser trabalhada.

          Apresento abaixo alguns tópicos que considero indispensáveis para que a família possa lidar com essa nova situação:

 

          * A alegria deve estar presente em todas as atividades familiares. Isso se tornará mais fácil se cada pequeno sucesso durante a recuperação for valorizado por todos.

          * No início é mais complicado: para o afásico, pela dificuldade de expressar seus desejos; e para os familiares, pela dificuldade de compreendê-lo. Para facilitar essa comunicação, faça-lhe perguntas e espere com calma até que ele encontre uma palavra ou um gesto que tenha algum significado para você. Muitas vezes, ele pode se referir a um determinado objeto usando um termo completamente inadequado. Pode ocorrer não só uma troca de nomes, como mesa x cadeira, mas a troca de um nome por palavras abstratas ou palavras sem qualquer significado. Se não o compreender, também poderá recorrer aos gestos, se as palavras não forem compreendidas por ele. A gesticulação pode ser de grande auxílio. Não se preocupe se ele repetir a mesma palavra durante algum tempo (jargão). Responda a esse jargão, falando sobre algum assunto pelo qual ele se interesse.

          * O ideal é que o afásico, no ambiente em que estiver, não se veja envolvido por muitas pessoas ao mesmo tempo. Cada pessoa deve falar por sua vez, sempre mostrando que deseja a sua participação, mesmo que seja necessário ajudá-lo a falar.

          * Se ele se exprimir de forma incompreensível, não finja que o compreendeu, pois não esqueça de que ele percebe a sua reação. Para alcançar o objetivo, mostre que não entendeu o que ele disse. Faça-lhe perguntas e nunca o atropele enquanto ele estiver falando. É importante saber ESPERAR. Reconheço que esta atitude é difícil para a maioria das pessoas, mas é indispensável.

          * É sempre bom lembrar que se trata de um adulto e como tal deve ser respeitado. Sempre que possível, deixe que ele resolva a situação. Nada pior do que a infantilização de uma pessoa adulta, pois isso provoca um sentimento que prejudica a sua auto-estima. É importante estimular sua independência.

          * O afásico apresenta fases de euforia e de desânimo. Procure não se contaminar por esses seus estados emocionais, pois só assim poderá preservar sua tranqüilidade, tão necessária para fortalecê-lo.

          * Nunca use a palavra ERRO, pois isso poderá provocar até uma regressão. É importante lembrar que o erro não existe. O que existe é uma procura de novos caminhos para se chegar aonde se pretende.

          * A família deve tomar conhecimento de que a recuperação de maneira geral é lenta, com exceção de alguns casos cujo comprometimento cerebral tenha sido pequeno e às vezes passageiro.

          * Sempre que possível, faça-o ouvir música. Cante com ele canções que façam parte de sua história; peça que sugira novas canções. Use a música como um instrumento facilitador nessa relação.

          * Deixe ao alcance dele material como lápis, papel, tinta, tesoura, cola etc., para que possa desenvolver a sua imaginação. É preciso dar-lhe a oportunidade de deixar fluir sua criatividade, enriquecendo sua linguagem.

          * Havendo possibilidade, saia com ele de casa. De preferência, vá a lugares onde ele gostava de ir antes do acidente. Vá comentando tudo o que estiverem vendo e faça-lhe sempre perguntas, para estimulá-lo. Não é importante que ele responda, mas sempre lhe deve ser dada a oportunidade para que isso aconteça.

          * Se ele se tornar agressivo você deve se defender, mas com tranqüilidade. Observe se aconteceu, naquele momento, alguma coisa que pudesse irritá-lo. Analise bem a situação que possa ter provocado aquele comportamento e, caso isso se repita com freqüência, procure a orientação de um especialista, pois é preciso evitar a desestruturação do ambiente familiar.

           Agora cabe a você desenvolver essas idéias, usando a sua criatividade diante das situações que aparecerão no decorrer do processo de recuperação.

          Gosto sempre de lembrar que a grande pioneira no trabalho de recuperação de pessoas com afasia foi a nossa querida e saudosa Lea Lattari, que sempre procurou ajudar dando cursos em Faculdades e colaborando com suas colegas, que tanto necessitaram da sua ajuda.